project.

Resumo:

Este projeto é uma síntese da pesquisa sobre a contrassexualidade e a busca de um novo modelo de sociedade por meio da aproximação e do afeto que surgem com o ouro sobre meu corpo primeiramente na performance, “Dance With Me” (2018-2019) e depois se desdobram nas telas, objetos, e instalações. A obra para a, 12 Bienal do Mercosul é uma síntese das teses e antíteses dessa pesquisa. Apresenta como tese a Contrassexualidade, e como antítese através da obra, “Bruna: Cidade, Feminilidade e Dissidência” (2018), a realidade atual. Para então, no somatório de tudo chegarmos à síntese. Que nada mais é do que um pensamento, uma forma de arte, relatos, e pesquisa sobre o corpo transexual e o corpo falante. Desdobrado em uma instalação onde o público é convidado a ver, ouvir, tocar, sentar, ativar os sentidos e interagir com novas formas e ideias de pensar o corpo e o sujeito para além da dicotomia de gêneros. 

___

Formas Contrassexuais: 

"Na série Formas contrassexuais (2018 - ), a artista recorre a Paul Preciado e à sua obra Manifesto contrassexual, em que o filósofo espanhol propõe um modelo social não binário no qual os indivíduos seriam compreendidos como corpos ou sujeitos “falantes” imbuídos de potência. Preciado apresenta ainda práticas de inversão contrassexual como a dildotectônica e a dildotopia, tecnologias que, influindo radicalmente nas relações interpessoais e sexuais, permitiriam a ruptura de um sistema que aprisiona corpos e formas de prazer. Munida desses conceitos, Élle de Bernardini cria objetos que aludem a partes do corpo, em especial, zonas erógenas, recombinadas de maneiras não usuais. Por meio de uma representação sintética destes membros, como seios, vaginas, ânus etc., Bernardini desenvolve uma espécie de léxico formal próprio, em que supostos dildo-pernas ou dildo-bracos, implantes de clitóris e aberturas de orifícios seriam possíveis em variadas partes do corpo, desconstruindo as conjecturas de uma pressuposta materialidade corporal única." - Beatriz Lemos (catálogo: "História das Mulheres; Histórias Feministas". Masp. 2019)

Imagem 2d do projeto da instalação comissionada 

 

text.

Esboço para uma epistemologia travesti 

 

Me pergunto se seria possível traçar uma linha, ou nem isso, no começo me contento em recolher fragmentos, de nossa existência nesse planeta e as marcas que deixamos, seja na área do conhecimento, ou da arte, como pessoas renegadas pelo sistema. Quando falo “nós” me refiro à travestis e transexuais, aos corpo não-binários, e todos aqueles cujo o gênero está determinado pelo sexo. Todos aqueles corpos não cis. 

Sinto que uma lacuna na história precisa ser preenchida e um erro reparado. Uma necessidade de reunir ou criar referências para nossa limitada realidade me impelem a escrever esse esboço na esperança de um futuro próximo escrever linhas mais sólidas e concretas capazes de oferecer estimada contribuição para o conhecimento, enquanto pessoa travestigenêro, pois é nesse local de fala que me coloco e permanecerei durante todo esse estudo. Não interessa aqui o que pensam as pessoas cis, mas como pensam e o que pensaram as pessoas trans. 

Implicações inúmeras decorrem do fato de ser ou nomear-se, travesti, porque nossos corpos e nossas identidades não são reconhecidas como sendo de pessoas. Somos empurrados sistematicamente para uma margem, onde não há espaço para a subjetividade, para o desenvolvimento intelectual, e até mesmo para o amor. O sistema heteronormativo lê nossos corpos como objetos sexuais, de fetiche, como uma boneca inflável ou uma escultura. Isso me faz voltar milhares de anos atrás até o, “Hermafrodita Deitado”, cujo no leito esculpido por Bernini, descansa uma escultura encontrada nas ruínas do que antes fora uma grande civilização, berço do conhecimento ocidental. Ali claramente o outro é confrontado com o que para ele parece ser duas realidades distintas, com a face voltada para um lado vê-se o rosto feminino da escultura, e ao circular por volta dela até seu outro lado, descortina escondido e tímido um falo entre as pernas. Curioso ainda é pensar que por ordem e cuidados de um bispo romano essa preciosa escultura sobreviveu e chegou até nós. 

Essa peça de arte não é a única existente sobre o assunto, mas talvez seja a mais famosa do pequeno escopo existente. Esse tema sempre foi tabu. Na mitologia grega o filho de Hermes e Afrodite, um lindo menino, havia sido violado por uma ninfa, única vez que uma ninfa comete o ato e não o é vítima dele na mitologia, e por esse ato o menino fundiu-se ao corpo da ninfa originando um ser cujo os dois sexos estão presentes. É importante retirar dessa mitologia a conclusão de que para os Gregos antigos o sexo e o gênero estava relacionados, não havia uma distinção, portando a genitália definia o gênero. Uma concepção extremamente popular que vigora até hoje. Porém as teorias de gêneros do final do século XX mostraram que a questão: sexo versus gênero é mais complexa, e merece um melhor cuidado a ser analisada, principalmente porque estamos a falar de pessoas, e o modo como as palavras a respeito desse assunto são colocadas afetam diretamente todas as pessoas nessa delicada posição social. 

Não nos interessa aqui traçar uma linha cronológica na história de referências, tão somente, mas buscar nelas, no que sobrou delas, o pensamento por trás, a proposição que nos leve a pensar o conhecimento e a própria filosofia sob uma ótica trans, e não cis como sempre foi. Para isso é imprescindível estabelecer os pontos de semelhança e distinção entre esses dois espectros das polaridades de gênero, de um lado a cisgeneridade, ou paridade de gênero, que estabelece apenas dois gêneros oriundos do sexo (que são a mesma coisa), homem ou mulher; e por outro lado a transgeneridade que abrange todo o espectro que vai de uma ponta a outra, ou seja, do feminino ao masculino. Existe uma infinidade de identidades de gênero. E sexo e gênero estão desconectados no sentido de que um não determina necessariamente o outro, sendo assim perfeitamente plausível pensar homens com vagina e mulher com pênis. O gênero já dizia a filósofa, Judith Butler, precede o sexo. 

 

O sexo é uma prática regulatória de controle dos corpos, é uma norma. Uma materialização imposta que produz os corpos que governa. É um construtor material reforçado através do tempo. A materialidade do corpo produzida pela normatividade visa o controle dos corpos, a delineação de suas curvas, e o efeito produtivo de poder. Deste modo o sexo não é algo que alguém simplesmente tem ou uma descrição do que alguém é, ele é convertido na norma pela qual o sujeito é quantificado no interior da vida cultural social. Ele é o marcador que torna legível e compreensível aquele corpo para a sociedade. 

O sistema discurso permite e impede que certas identificações sexuais sejam identificadas ou negadas pela normatividade. É sobre essa matriz excludente que emerge a necessidade de serem abjetos, ou assim compreendidos, excludentes da norma vigente, não sujeitos, que são empurrados para as zonas inabitáveis. A marginalidade constitui a zona delimitadora entre o sujeito e o abjeto, é o local da identificação normativa. Nesse sentido todo corpo que habita essa zona não habitável, todo corpo abjeto, luta pelo reconhecimento enquanto sujeito, reivindica seu direito à vida, à autonomia, e à existência.  

Uma força política é exercida para manter a normatividade do sexo que assombra os corpos como fantasmas. A própria instabilidade das categorias produz a abjeção e integra os sujeitos. A resistência pela desindentificação normativa é fundamental para a rearticulação da contestação democrática. Tais desindentificações coletivas com a normatização podem gerar de fato uma recontextualização da questão de saber quais corpos existem, segundo a norma, e quais emergem fora dela. 

O caminho que seguimos, nós travesti e transexuais, é o da desindentificação ou resistência. O sexo é um local deflagrado sobre o qual diversas contestações estão em jogo; sobre quais os critérios devam ser decisivos para demarcar a distinção entre os dois sexos. O conceito de sexo tem uma história ocultado pela importância dada à superfície do corpo onde ele deve estar inscrito. Visto como algo natural e por assim sem valor, só ganha valor quando adentra a esfera do social, ao mesmo tempo que renuncia o natural. Deste modo podemos pensar que o gênero então é um significado social que o sexo assume no escopo de uma dada cultura. O sexo assume caráter social como gênero, é absorvido pelo gênero. Não existe um acesso direto ao sexo, se não por uma leitura das superfícies dada pela normatividade, e nesse sentido o sexo é absorvido pelo gênero, instalando-se em um local pré-lingüístico, sem acesso direto fora da lei. Fazendo dele uma ficção, um fantasma que paira sobre o gênero.  

II.

O problema mente-corpo é visto segundo uma lógica dualista. Estando a mente separada do corpo. Dado que aquilo que se sente ser no interior é buscado pela vida inteira através do corpo, há uma concepção implícita de que a alma seja independente do corpo. É o que aparece nos discursos dessas pessoas que negam seu corpo, como tendo nascidos em corpos errados, e buscam a vida inteira adaptar a matéria ao espírito, entendido aqui como o eu subjetivo. Poderíamos a partir deste exemplo trazer para a discussão a pergunta que outrora já fora feita pelas feministas. Michelle Perrot colocou a pergunta nos anos oitenta se existia uma maneira feminina de fazer e contar a história, e que fosse radicalmente diferente da masculina? Para ela a resposta não era muito clara, mas concordava que era evidente um ponto de vista feminino e uma abordagem dos fatos, uma maneira própria do feminino de contar a história. 

É importante termos em mente aqui que quando relacionamos teorias feministas com o que nos propomos a fazer neste momento, não às tomamos por completo, as teorias, mas usamos de suas proposições como ferramentas de pensamento, para que possamos co-relacionar pensamentos sobre gênero. Uma vez que sumariamente o conteúdo das pesquisas de gêneros nasceram no bojo das investigações feministas e tem a figura da mulher como exemplo do gênero excluído. Aqui nosso paradigma não repousa sobre a figura da mulher, mas do feminino, sobretudo a travesti e a figura transexual feminina e não-binária. 

A teoria feminista contemporânea já foi confrontada com a perda da essencialidade do ser mulher. Não há mais nada que naturalmente seja suficiente para classificar ou desclassificar pessoas como sendo mulheres ou não. O que na teoria feminista biologista era impensável, a mulher era definida sobretudo pela presença dos órgão reprodutores, e da reprodução, e mesmo assim as práticas reprodutivas, e as questões familiares da classe média burguesa, pareciam se sobrepujar aos discursos excluindo até mesmo mulheres, negras, pobres, e de orientação sexual gay ou bissexual. Donna Harroway deixa claro essa mudança que ocorreu no pensamento feminista e que levou as feministas a reverem suas teorias: 

 

“Não existe nada no fato de ser “mulher” que naturalmente una as mulheres. Não existe nem mesmo uma tal situação – “ser” mulher. Trata-se, ela própria, de uma categoria altamente complexa, construída por meio de discursos científicos sexuais e de outras práticas sociais questionáveis. A consciência de classe, de raça ou de gênero é uma conquista que nos foi imposta pela terrível experiência histórica das realidades sociais contraditórias do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado.” (Manifesto Cyborgue, pg:41)

 

Retomando, e adaptando, a pergunta feita por Michelle Perrot: podemos conceber uma maneira própria de pensar, fazer e contar a história por uma perspectiva travesti? Levando em conta todas as questões a respeito do corpo, da abjeção, que tornam o olhar desses sujeitos sobre a realidade completamente singulares, radicalmente diferentes do feminino e masculino bipolar, normativo? 

 

O ponto de partida é o corpo e tudo que a ele ocorre nesse percurso da “montagem” e “desmontagem” do ser travestigenero; da busca da relação entre sentimentos internos e corpo dos transexuais; do apagamento, ou desmantelamento das noções polares de gêneros que apresentam corpos que só podem ser compreendidos por uma lógica não-binária. E por isto, por requererem uma lógica não normativa de legibilidade, torna-se evidente que Sim!. Podemos conceber uma maneira própria de fazer e contar a história toda nossa, travesti, transexual, mulher, feminino. 

-- Versão escrita do quarto audio na voz da artista que compõe a instalação. Vide projeto 2D.

 
 

audios.

Na versão para celular os audios demoram alguns segundos para iniciar. Aperte o play e aguarde.

Primeiro audio - 
00:00 / 20:46
Segundo audio - 
00:00 / 13:01
Terceiro audio - 
00:00 / 12:11

©2020 site criado para abrigar o projeto "Transdialética" comissionado para a 12 Bienal do Mercosul, Porto Alegre, Brasil